2 de abr de 2012

História do Skate no Brasil

O esporte chegou a ser proibido em São Paulo em 1988, mas agora é o segundo mais praticado no país.

“Surfinho”. Quando começou a ser praticado no Brasil, nos anos 1960, era assim que o skate também era conhecido. Criado na Califórnia, no fim do século XIX, como um novo brinquedo, quando o invento chegou por aqui ainda não se tinha o entendimento que se tem hoje do skatismo: um dos esportes radicais que mais atraem jovens de todo o mundo e que movimenta uma indústria milionária ligada à moda e ao comportamento juvenis.


Sua transição mais efetiva para o mundo dos esportes só ocorrei em 1972, quando o engenheiro químico norte-americano Frank Nashworthy introduziu o poliuretano na fabricação das rodinhas do skate, tornando-a mais aderente e capaz de atingir velocidades incríveis. Antes as rodas eram feitas de argila, ferro e borracha. Além disso, alguns jovens californianos começaram a utilizar esta pratica os mesmos movimentos do corpo que faziam para pegar ondas no mar com suas pranchas de surfes. Assim, a união entre a tecnologia com o movimento do surfe, o skate começou a ser visto como um esporte alternativo, conquistando muitos adeptos durante a segunda metade da década de 1970, inclusive no Brasil.

Embora tenha sido praticado em muitas cidades do país, na cidade de São Paulo ele se destacou por uma série de problemas relacionados ao seu uso no espaço urbano. De acordo com alguns depoimentos e reportagens em revistas existentes na época, a Rua Queiroz Magalhães, no bairro do Morumbí, foi o primeiro reduto destes jovens “radicais”. João Bruno Leandru Júnior, mais conhecido como Bruno “Brown”, que fez parte destas primeiras gerações dos skatistas paulistanos, relata que começou nesta atividade em 1973, recordando que morava na Alameda Casa Branca, nos Jardins, tendo iniciado no esporte por influencia de um vizinho.

Em 1974, os skatista começam a procurar ladeiras com bom asfalto. Foi assim que chegou a Rua Queiroz Magalhães, que tinha o apelido de “tapetão” entre os praticantes do esporte. De lá eles desciam até o cruzamento com a Rua Francisco Morato. Mas logo começaram a correr acidente, tombos com graves conseqüências e aglomeração de muitos jovens no local. Estes fatos contribuíram para provocarem as primeiras das muitas combinações que esta atividade teria em sua história. Após ter “feito a cabeça” de muitos jovens, o skate foi proibido na cidade em 1975. Na palavra do Bruno “Brown”, “proibiram porque muita gente andava, era tipo incontrolável. Deu muito acidente, morreu gente, o skate era muito pequeno... A Rua Queiroz de Guimarães virou um centro, e os caras mandavam a policia lá direto. Porque o skate foi proibido mesmo. Saiu até no jornal, Saiu no Estado de S. Paulo em 1975, nunca mais esqueci, a chamada era assim: ‘Skate: esporte assassino proibido’. Ai teve esta confusão toda e fizeram a rua do lazer, que era a circular do bosque no Morumbí, e sábado e domingo colocavam cordas no inicio e no fim, e aí virou a rua do skate. E a gente andava lá”.

Diante desses acontecimentos, o jornalista Luiz Calos Azevedo, em reportagem publicada na revista Manchete no dia 25 de outubro de 1975, descreveu a forte repressão que os skatistas começaram a sofrer por praticarem um “esporte proibido”, destacando um episodio em que os praticantes “foram cercados por policiais armados de metralhadoras”. De acordo com a reportagem, no dia 21 de setembro de 1975, “soldados da PM cercaram, na Rua Queiroz Guimarães, no Morumbí, mais de 100 skatista – entre rapazes e garotas – sob a mira de metralhadoras”. No relato de pessoas envolvidas no evento encontrava-se frases como “um deles me apontava um revolver calibre 38, engatilhado, e outro uma metralhadora, calibre 45, pronta para disparo”.

Com o surgimento das ruas de lazer e depois das pitas de skates, como a Wave Park, inaugurada no bairro de Santo Amaro, em São Paulo, em 1977, a pratica começou a ser mais aceita socialmente, o que resultou na organização de campeonatos e em diversos textos em publicações voltados para a juventude, como a revista Geração Pop, da Editora Abril, publicada entre novembro de 1972 e agosto de 1979.

Em meados da década de 1980, um novo episódio envolvendo a proibição da pratica do skate voltou a ser manchete nos jornais das cidades. Diferentemente dos anos de 1970 – quando a pratica ainda exibia muito do visual das técnicas que vinham do surfe –, a década de 1980 trouxe para esse universo uma serie de outros elementos. Entre as novidades estava a influencia da cultura punk e o desenvolvimento do streetskate, modalidade na qual os esportistas passavam a interagir com diversos elementos da arquitetura urbana, como corrimão, escadas, calçadas e paredes. Para ter uma idéia da revolução ocorrida na época com essa pratica, o eskatista Fabio Bolota relembra que a roupagem do punk-rock “se incrustava nos praticantes de todo o mundo. No Brasil não foi diferente. Calças descoloridas e rasgadas, com a camiseta da banda preferida e um bracelete de pontas. Skate or Die! (Skate ou Morte!) ou qualquer frase de efeito parecida estavam ecoando em cada quarteirão. Marcando muito bem esta atitude, o 2º Campeonato Brasileiro de Guaratinguetá foi um desfile de punks e simpatizantes. A cidade foi invadida por alfinetes e penteados que iam moicano do espigado ou pintado. Essa atitude começou a incomodar os moradores da pacata cidade, e logo depois ele entraram em guerra com os skatistas”.

Junto com o visual que vinha da cultura punk, a prática na rua – com skatistas pulando escadas e invertendo o sentido original dados pelos urbanistas aos espaços – começou a incomodar os transeuntes, e no caso de São Paulo, seu prefeito na época, o já popular Jânio Quadros. Em 1988, Jânio Quadros decidiu proibir definitivamente a pratica do skate em São Paulo. O jornal Folha de S. Paulo, que cobriu passeatas e protestos de muitos praticantes do esporte, publicavas opiniões contrarias a medida de Jânio, vista por muitos como conservadoras, repressora, e que impedias o direito de ir e vir.

 
(imagem_2: Paulo Anshowinhas em 1986, na Av. Paulista, época em que a prática ainda era permitida; imagem_3: ex prefeita de S. Paulo Luiza Erundina sobre um o skate em 1990, mudança dos ventos)

Cartas que chegavam as publicações da época noticiavam o abuso da autoridade contra os skatistas e a repressão a esta pratica repressiva. A revista Yeah!, de circulação nacional, chegou a adotar o slogan “Skate não é crime”. Diferentemente dessa medida conservadora de Jânio Quadros, sua sucessora na prefeitura de São Paulo, Luiza Erundina, assumiu uma postura mais progressista e prometeu legalizar novamente a atividade. Ela chegou a posar para fotos em cima de pranchas de skates, como pode ser vista no Jornal da Tarde em 1990.

De lá pra cá, muita coisa mudou. Em 1995, por exemplo, por meio do projeto de lei apresentado pelo estadual Alberto Hiar, foi criado do Dia do Skate, comemorado em 3 de agosto. Mais recentemente, durante a gestão de Marta Suplicy como prefeita da cidade de São Paulo (2000-2004), foram construídas mais de 60 pistas publicas de skates dentro do projeto de revitalização das praças “centros de bairro” e nos centro educacionais unificados, conhecidos como CEUs.

Embora a pratica da rua ainda exista e  seja forte dentro dessa cultura, ela perde espaço na grande mídia para outras modalidades de skate que apresenta maios apelo visual,  disciplina e alcance publico, como o que é praticado nas pistas com rampas verticais, chamadas de half-pipe, e que podem ser representadas pela letra “U”. Televisionado como um esporte radical e contando com grande numero de praticantes e simpatizantes, o skate chega ao século XXI apontado por algumas pesquisas como o segundo esporte mais praticado no país, atrás somente do futebol. Na edição de 2008 do campeonato de esportes radicais X-Games, que foi realizada em São Paulo, um publico de mais de 40 mil espectadores assistiu às competições, dando ainda mais destaque ao skatismo como uma cultura juvenil em forte ascensão atualmente.

Estudar o reconhecimento desta pratica como esporte ou mesmo analisar sua criação como uma cultura jovem é avançar nos domínios ainda pouco explorados da historia dos esporte radicais do Brasil.

(Título original do texto: Metralhadoras Contra Skates, de Leandro Brandão; Revista de História da Biblioteca Nacional – pag. 36-38; nº 54, Março de 2010)

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