1 de out de 2010

Miguel Estéfano


Hoje, no município de Guarujá, a avenida que corre paralela à praia da Enseada, uma das mais importantes da cidade, chama-se Miguel Estéfano. É nome de família libanesa. Em árabe, se pronuncia "estefê". No registro de imigração traduziram para "Estéfano". Dai a confusão. Chegou ao Brasil em 1879, já em 1906 Miguel Estéfano, com 44 anos, criava no bairro do Jabaquara uma das primeiras tecelagens industriais do Brasil, a Pereira & Estéfano. Mas começara sua vida vinte anos antes na profissão tradicional dos "turcos": mascate.

Miguel juntava três ou quatro malas, enchias de roupas, espelhos, pasta de dente, escovas variadas, pentes, peças de veludo, sapatos, etc. e saía vendendo pelo mundo. Importante era não esquecer os óculos. Eram de grau. Ele levava nunca menos do que 30 óculos em cada viagem. A freguesia experimentava, via com qual enxergava melhor e comprava.

Várias vezes o jovem Miguel fez a pé o percurso entre Rio e São Paulo. Dormia ao relento. Quando chovia, pedia pouso a algum fazendeiro. Às vezes conseguia, quase sempre na estrebaria. Em outra, dormia na chuva. Amanhecia encharcado. Mais importante era proteger as malas com as mercadorias. No dia seguinte, seguia caminho. A roupa ia secando enquanto andava.

Assim Miguel Estéfano juntou dinheiro para comprar uma chácara no Jabaquara - onde morou e perto do local em que mais tarde a Fiação Pereira & Estéfano. A casa, construída no início do século passado, ainda existe. A fiação ele acabaria vendendo para o Moinho Santista.

Miguel Estéfano desviou-se um pouco da linha tradicional do imigrante libanês - mascate, comerciante, industrial. Foi para o interior e montou a primeira usina hidrelétrica da região de Salto do Avanhadava, no rio Tietê, a cerca de 500 km da capital. Com o nome pomposo de Companhia Nacional de Energia Elétrica, um imigrante libanês estava diretamente no setor de infra-estrutura.


Quando morreu, em 1951, Miguel Estéfano era um dos maiores proprietários de terra do Estado de São Paulo. No Guarujá, onde fica a avenida com seu nome, metade da praia da Enseada era sua, 7 milhões de metros quadrados. A primeira casa da praia da Enseada foi dele. É onde funciona hoje o Hotel Casa Grande, um 5 estrelas e uma lembrança de sua casa em Catanduvas. Durante anos o hotel pertenceu à família, administrado por Carlos Eduardo Estéfano, filho de Ignácio Estéfano e neto de Miguel. Quando Miguel Estáfano faleceu na sua casa no Guarujá, no dia 14 de Fevereiro de 1951, a imprensa registrou no seu necrológio que ele deixava 8 filhos, 25 netos e que tinha a quinta ou sexta fortuna de São Paulo.

Uma filha de Miguel, Maria Estéfano, que se casaria com Salim Maluf, teve cinco filhos e herdou cerca de 500 mil metros quadrados de frente para o mar, na Enseada. Hoje estão construídos ali um supermercado Carrefour e vários conjuntos de apartamentos.

Uma dos principais pontos de referências da cidade do Guarujá é o Morro do Maluf, entre as praias das Pitangueiras e da Enseada. Só que não tem nada a ver com a família Estéfano ou com os Maluf. O morro pertencia a um outro Maluf, industrial em São Paulo, solteiro, que tinha casa na ladeira do morro e dava festas memoráveis que agitavam os fins de semana do Guarujá.

(Parte escrita são trechos do livro de Paulo Salim Maluf; ''Ele: Paulo Maluf, trajetória da audácia'')

6 comentários:


  1. Acho admirável essas estórias antigas de São Paulo. Esta do Guarujá, estou acompanhando no FACE, muito interessante, além de nos proporcionar conhecimento mostra a luta dos emigrantes que conseguiram desbravar nosso lito
    ral.

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  2. Rica história, mas merece um adendo..um detalhe: ele tinha uma mansão em estilo árabe, ainda de pé, mas abandonada na cidade de Catanduva, não em Catanduvas, como descrito.

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    1. Comentário publicado, grato por colaborar este informe! :D

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  3. Conheço pessoalmente uma bisnet de miguel stefno, uma senhora super gentil que mora ainda na praia da enseada

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  4. Adorei a história, realmente linda e menoravel, uma super carga de conhecimento!!!

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