8 de out de 2010

Euclides da Cunha já morou no Guarujá


O fluminense Euclides da Cunha, que fora engenheiro, correspondente jornalístico do conflito de Canudos, escritor de Os Sertões, idealizador da transposição do rio São Francisco e imortal da Academia Brasileira de Letras, trabalhou na Comissão de Saneamento da Cidade de Santos em 1904. Ele veio morar, com 38 anos de idade, no Guarujá (ainda pertencente à cidade de Santos) por mais de cinco meses com toda sua família: a esposa Ana Emília Ribeiro (33 anos), os filhos Euclides Ribeiro da Cunha Filho (O Quidinho de 10 anos) e Manuel Afonso Ribeiro da Cunha (3 anos). Seu filho mais velho Solon Ribeiro da Cunha (12 anos) não pede estar junto, pois permanecia alojado num colégio católico.

Durante este período, Euclides manteve contato por correspondência com seus conhecidos de São Paulo e Rio de Janeiro. O primeiro registro desta comunicação é datado em Santos, dia 13 de Janeiro de 1904. Mas é em 23/04/1904 que está o primeiro registro por escrito deste escritor no Guarujá. Ele trabalhou aqui fazendo vistorias nas instalações urbanas e dava orientações para melhor adequação sanitária. O escritor ironiza tal fato ao responder para Coelho Neto, quando acabara de retornar da Ilha de Búzios e se depara com a correspondência daquele, no dia 07/08/1904, falando:

“Habituei-me ao Guarujá, ou melhor: o Guarujá comigo – tolera as minhas distrações, o meu ursismo [Trabalhar em Excesso], a minha virtude ferocíssima de monge e de dispéptico [Indigestão], de sorte que passo a olhar das vidas às voltas com o gárrulo [Tagarela] H. Heine ou com o Gumplowicz terrivelmente sorumbático [Chato]. Ponto. Imagina que ainda estou de botas, e de mala ao lado, e de chapéu à cabeça, - com os meus dois pequenos a puxarem-me desesperadamente para a sala de jantar! Recomenda-me aos teus.”

Ou seja, a vida dele aqui se resumia a excesso de trabalhos, com produções para os jornais e vistorias sanitárias, fadiga, dores de barriga e olhar a vida dos outros acompanhado por duas pessoas chatas.

Euclides da Cunha redigiu uma outra carta em 13/06/1904, porém agora estava em São Paulo, destinada ao Dr. José Veríssimo onde diz:

“...Continuo ainda em Guarujá (Santos), para onde voltarei amanhã. Lá estou inteiramente ao seu dispor, e lá aguardo sua resposta.”

Seu último registro escrito nesta cidade está datado em 09/09/1904, onde escreve para uma pessoa apenas tratada por Vicente. Euclides fala que escrevia a carta atrapalhado no tumulto da arrumação de suas papeladas, pois estaria de mudança no dia seguinte. Ele tinha aceitado outro emprego dado pelo Ministério de Relações Exteriores, na região Rio Perus (Amazônia), onde trataria de missões diplomáticas.

A permanência do engenheiro Euclides da Cunha no Guarujá fora um dos raros momentos que esteve com sua família e seus filhos adoraram tal fato. Antes de partir, Euclides confessa a Oliveira Lima por carta (dia 27/08/1904) que tinha receios de retornar ao Rio de Janeiro para deixar sua família lá antes de seguir viagem, pois havia no início daquele século vários surtos de varíola na antiga capital do país. Até navios europeus evitavam ancorar nos portos cariocas, pois além da varíola ocorrera naquele ano epidemias de febre amarela, cólera-morbo e a Revolta da Vacina.

(fontes de pesquisa: Livro Correspondência de Euclides da Cunha, por Euclides da Cunha, Walnice Nogueira Galvão e Oswaldo Galotti; http://www.releituras.com & http://pt.wikipedia.org/wiki/)

0 comentários:

Postar um comentário

Blog Guarujá Web, história e curiosidades do Guarujá. Escrito por Francisco Farias Jr | Blogger Template by Enny Law - Ngetik Dot Com - Nulis