02/08/2010

A Filha Que o Rei Não Quis


Quando contava com mais ou menos sete anos de idade, minha mãe me deu ciência de que era filha de Pelé.

Para mim, não fez diferença saber que era filha do Pelé. O que importava mesmo era saber eu tinha um pai!

Os valores da criança não são os mesmo de um adulto. Não importa para a criança se seu pai é rico ou pobre, mas que seu pai é seu pai. Os valores criados pela sociedade não interfere jamais nos valores intrínsecos da vida natural.

Pergunte a uma criança filhas de pai pobres se ela gostaria de trocar seus pais por pais ricos. A resposta seria sempre: Não!

Mas com o passar dos anos, fui me interessando por meu pai. Queria um dia poder me aproximar dele, dizer-lhe que era sua filha e receber suas calorosas boas-vindas. Queria poder abraçá-lo. Queria muito poder, como tantos outros seres humanos, ter o gosto de chamá-lo de pai!

Meus sonhos cresciam nessa direção era impelida pelo que há de mais justo na face da terra.

Algumas pessoas diziam que só movi uma ação contra ele por se tratar de Pelé. Ora, a ação judicial só aconteceu por força da recusa da parte dele em querer me receber, e ainda por uma recomendação feita por ele mesmo: “Se ela diz que é minha filha, então manda pro pau”.

Sendo ou não uma pessoa importante, é direito inquestionável de qualquer filho neste mundo ir atrás de seu pai. Por outro lado, ser Pelé – e não apenas o cidadão Edson Arantes do Nascimento – acabou sempre atrapalhando essa aproximação.

Se ele não fosse o rei do futebol, será que já não teria conseguido aproximar-me dele?(...)

É bem mais fácil para mim reviver hoje estas memórias; afinal, sou uma pessoa adulta, de sentimentos mais cristalizados pelo tempo, mais sei quanto me foi duro ter passado por aqueles momentos, quando ainda estava vivendo meu tempo de transição como adolescente, de formação do meu caráter. Estas lembranças me sensibilizam em relação a tantas crianças carentes de seus pais, de amor, de afeto, de atenção. Crianças filhas do desprezo que, na sua necessidade de dependência plena da figura forte e amparadora dos pais, vivem ao léu, esperando que alguma migalha caia da mesa de quem tem pão, e até quando não se vêem obrigadas a conseguir esse pedaço de pão na “marra”.

Uma das maiores dificuldades eu sentia, à medida que ia me tornando mocinha, era apresentar minha identidade. Eu procurava respostas com evasivas toda vez que perguntavam pelo nome de meu pai ou então respondia, constrangida: “não tenho pai”, já em situação menos formais, era comum dizer: “meus pais são separados”.

Era uma situação de muito desconforto para uma adolescente que a cada dia ganhava consciência do seu caráter cristão. A mentira não podia caminha junto com minha fé. Omitir o nome do meu pai sufocava-me. Por outro lado, dizer que era filha de Pelé podia causar-me alguns constrangimentos, sobretudo o de ser desacreditada e passar por pretensiosa.

Diva, em cuja casa eu fora morar, tomou conhecimento da minha paternidade quando eu ainda era jovem. Conhecendo intimamente as condições de vida que me cercavam, interessou-se por saber tudo o que pudesse sobre minha história e, a exemplo do que fizera Maria José, Diva insistia para que eu procurasse meu pai. Mas como?

Em conversa com minha mãe, Diva insistiu com ela quanto à importância dessa procura. Foi quando minha mãe teve a idéia de lhe escrever uma carta. Diva gostou da idéia e incluiu uma foto de minha mãe, ainda que seu rosto já estivesse bem diferente de quando meu pai a conhecera. Mas a carta, cuja cópia infelizmente foi perdida, nunca resultou em qualquer tipo de resposta.

Resolvi tomar uma outra iniciativa: telefonar para casa de meu pai no Guarujá. Fui atendida educadamente pela governanta. Apresentei-me como filha de Pelé. A governanta então prometeu fazer contato com ele e dar uma resposta.

Ao ligar novamente, recebi o seguinte recado: “Manda ela procurar os direitos dela. Inclusive, eu pago o advogado para ela”. Julguei que meu pai pudesse dar uma resposta diferente. Por que não me chamar para um diálogo a respeito do assunto? Além do mais, a forma como respondeu pareceu-me debochada.

Mais uma vez, minha mãe pediu que eu me afastasse de tal procura, por considerá-la inútil. Mas agora eu estava resoluta e ofendida. A sugestão de meu pai devia ser levada a sério. Eu iria então buscar os meus direitos!

Começamos a procurar um advogado para cuidar do caso. A princípio, recorremos a um conhecido da família, mas ele queria muito dinheiro para assumir o caso porque não acreditava na vitória, tanto que me aconselhou a desistir do meu intento. Buscamos um outro advogado que se dispusesse a assumir uma causa de risco, ou seja, os honorários dependeriam do meu sucesso em tal causa.

O segundo advogado que arranjamos deixou bem claro que assumiria a causa, mas debaixo de spot lights. Queria manchetes em todos os jornais, comprometendo a imagem de meu pai. Acho que essa pessoa entendia que, ganhando solidariedade pública, a causa estaria judicialmente garantida. Além do mais, quando entendi que essa pessoa estava mais interessada em ganhar a causa na imprensa do que na justiça, desisti – até porque jamais foi minha intenção tirar qualquer proveito do caso.

Certo dia, conversando com uma amiga que é sogra de um juiz aposentado, minha mãe pediu eu esta senhora interviesse a meu favor.

- Vou falar com meu genro. Ele é um homem bom e muito correto.

Três meses depois, essa senhora promoveu o encontro entre seu genro, o Dr. Adilson, e minha mãe. Mas ainda continuava a pensar a impossibilidade econômica de arcarmos com os honorários advocatícios; no entanto, o Dr. Adilson nos disse que não seria por isso que deixaria de assumir minha causa. Por outra razão, preferiu apresentar-nos a um advogado, amigo seu, o Dr. Nilo Entholzer Ferreira.

A princípio, eu e minha mãe achamos o Dr. Nilo uma figura imponente e um tanto intimidadora, mas bastaram alguns contatos para sentir a firmeza de um homem de bem que entra numa causa séria porque sabia que a verdade e a justiça haviam de prevalecer. Mas até que chegasse a esse ponto, o Dr. Nilo, com voz firme de quem sabe o que quer e onde pretende chegar, indagou: “Mas que prova a senhora tem para afirmar toda esta história?” a resposta de minha mãe, então, veio carregada de convicção: “A prova é ela: Sandra”.

Não havia mais o que discutir, era só olhar para minhas feições e compará-las com as de meu pai. O Fato era tão óbvio que ele ficou convencido. O Dr. Nilo preparou a petição e entrou na Sexta Vara Cível de Santos em busca do reconhecimento da minha paternidade pelo Sr. Édson Arantes do Nascimento, o famoso Pelé.

Mesmo depois de haver entrado na justiça para reivindicar minha causa, continuei mantendo a esperança de que o processo não precisaria completar toda a sua jornada para que meu pai se voltasse para mim.

A imprensa tornou o meu caso conhecido. Ela sempre se mostrou solidária com minha causa e sem nunca perder o respeito por meu pai, o que sempre achei interessante. Tenho recebido, desde então, a manifestação maravilhosa de pessoas simpáticas de todo o mundo, por cartas e por telefone. Outras vezes, andando na rua, sou abordada por gente que me diz: “Sandra, estou torcendo por você”.

Em meio às inúmeras tentativas de alcançar meu pai, escrevi o seguinte artigo na seção “Ponto de vista” da revista Veja de 20 de Maio de 1992, intitulada “Pelé é meu pai”:

“Eu sou filha de Édson Arantes do Nascimento, o Pelé. Acredito que está chegando ao fim a luta para que meu pai me reconheça. Graças à ciência, já está provado que sou sua filha. A justiça, acredito, está prestes a reconhecer essa verdade, apesar de os advogados de meu pai terem pedido a troca do juiz, que, segundo eles, seria suspeito para julgar o caso. Mas não é necessário o exame de DNA ou a decisão do juiz para que eu tenha essa certeza. Para mim, que esses anos todos tenho tentado encontrá-lo, há muito tempo que não existe qualquer sombra de dúvida, e os exames só fizeram confirmar o que eu já sabia. Pelé é meu pai e vai me reconhecer. Se a ciência não for o bastante, e a própria justiça me falhar, ainda assim ele fará o reconhecimento. Mesmo que procure se enganar, no fundo do coração ele me reconhecerá"(...)

(Trecho do livro A Filha que o rei não Quis, de Sandra Arantes do Nascimento com Walter Brunelli)

3 comentários:

Anônimo disse...

gostaria de saber onde posso comprar este livro aqui em fortaleza.

Lúcia Lis disse...

Adorei seu blog!!Esse assunto foi importante para o meu trabalho de Português.
Ao lê-lo, me emocionei bastante, foi difícil conter as lágrimas.
Abraços, Lúcia. (Curso de Direito)

Anônimo disse...

Eu assisti agora no programa muito mais da band sobre o dna dos famosos e soube desse caso do Pele, essa moça deve ter sofrido muito. já com a outra filha que é bem sucedida e enquadra bem nas câmeras ela faz questão...

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